O INTERIOR DA BAHIA
As cores do fim de mundo

Cidade de Mairi - BA
Segunda, três de agosto. Primeiro dia da viagem de férias. Acordamos bem cedo e aos poucos, com o simpático despertador do celular do Tarcísio, que tocou uma música suave que ia aumentando a intensidade lentamente. Eram seis da manhã.
Dormimos muito tarde no domingo. Ansiedade e malas na última hora, como bom brasileiro.
Muito frio. Nove graus, porém deixamos Curitiba com um belo sol nascendo no horizonte que atrapalhava a direção da minha sobrinha Tina, que nos levou ao aeroporto.
O vôo, regado a bolinho de chocolate Bauducco e salgadinhos Parati, os quais o Tarcísio devorou de ansiedade, sem falar das “trocentas” balinhas 7 Belo que os comissários despejavam em nossas bandejas, foi muito tranqüilo. Conexão em Belo Horizonte. Chegamos a Salvador por volta de uma hora da tarde.
Alugamos um Fiat Idea. Ah, na saída do aeroporto o Tatá comeu um acarajé, claro.
A avenida que deixa a região do aeroporto e das locadoras é cercada por um enorme bambuzal, dos dois lados da pista, e suas folhas se encontram no topo, formando um arco por toda a sua extensão, um túnel natural. Fiquei imaginando a cara que os estrangeiros devem fazer ao passar por ali. Incrível.
O crescimento econômico, muito maior no nordeste, a taxas chinesas, ficou evidente nas obras que cercam toda a Avenida Paralela, que leva ao centro de Salvador. Edifícios modernos e imensos shopping centers pipocam por todos os lados. Eu passara por ali há dez anos e naquela época só se via mato. Não sei dizer se isso é bom...
O trajeto até Mairi, interior da Bahia, onde vivem os parentes do Tarcísio, foi longo, porém de um visual magnífico. O sol brilhava e os belos campos estavam verdinhos, mas descobri que ali é um sertão e que normalmente está tudo seco. Havia muitos cactos. O lugar estava deslumbrante. Tivemos sorte.
Paramos em um belo restaurante numa fazenda onde provamos comida regional, e um pouco mais à frente compramos tangerinas na beira da estrada.
Metade do caminho e fiquei surpreso com o tamanho da cidade de Feira de Santana, cheia de grandes e novos edifícios.
A segunda metade da viagem foi a mais demorada. Um retão que não acabava mais. Não se via nada, nem carros, nem caminhões, nem posto de gasolina, nada. Só os campos (os sertões verdes).
Passamos por dentro de uma cidadezinha onde as casas tinham suas fachadas e, portanto, suas portas, em cima da rua. Várias casinhas pequenas, simples e coloridas - cada uma de uma cor - coladas umas nas outras. Os mais velhos sentados nas varandas vendo a gente e a vida passar. A criatividade, ou falta dela, dependendo do ponto de vista, desta gente ao pintar suas casas é impressionante. Vimos casas amarelas que por dentro tinham suas paredes pintadas de rosa, casas verdes que por dentro eram lilás e assim você pode imaginar o resto do cenário. Casa coloridas e pessoas, também simples, vestindo cores vibrantes. Pensei em como eles deviam ser felizes ali naquele lugarzinho distante e alegre. Para mim, as suas cores significavam isso. Alegria.
No acostamento da precária rodovia de mão dupla, vimos muitas pessoas fazendo dali um parque de caminhada e corrida. O Globo Repórter tem feito bem para todos. Até ali naquele fim de mundo as pessoas estão cuidando mais da sua saúde. Adorei ver isso.
E o Tarcísio devorando as tangerinas. Impaciente, ele quase saltava pela janela do carro.
Agora o sol batia no horizonte, forte, atrapalhando minha visão - eu quase não via a pista.
Lembrei que no início da manhã nós estávamos em situação oposta, no sul do país, com o sol que nascia no leste batendo em nossos olhos, e, por capricho da natureza, no fim do dia nós estávamos no nordeste com o sol se pondo no oeste, em frente aos nossos olhos mais uma vez, numa inversão sincronizada. Percebi que ele nos acompanhara durante todo o dia. Perfeito.
Por do sol amarelo, lindíssimo, e a gente se embrenhando cada vez mais no fim do mundo.
Finalmente, já no escuro, lemos em uma placa de madeira: Bem Vindo a Mairi. Eram seis da tarde.

Avenida dos bambus

Aventura no sertão